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sábado, 31 de outubro de 2009

Sylvia Orthof

 CONTAGEM

Você já contou estrelas?
E nuvens? E passarinhos?
Já contou quantos dedinhos
têm os pés da centopéia?
Já contou quantas histórias
cabem dentro das idéias?
Já pensou quantas bestagens
podem ser inteligentes?
Já contou quantos gemidos
cabem numa dor de dente?
Já pensou quantas mentiras
escondem certa verdade?
Quantas grades e gaiolas
trancam nossa liberdade?


 A POESIA É UMA PULGA

A poesia é uma pulga,
coça, coça, me chateia,
entrou por dentro da meia,
saiu por fora da orelha,
faz zumbido de abelha,
mexe, mexe, não se cansa,
nas palavras se balança,
fala, fala e não se cala,
a poesia é uma pulga,
de pular não tem receio,
adora pular na escola...
Só na hora do recreio!


UM VERSO DE PÉ QUEBRADO 
TIROU A MEIA,
FICOU ENGESSADO...
MAS QUE VERSO 
MAL-CALÇADO!
COITADO!


TODA LINHA DE HORIZONTE,
QUANDO PASSA SE DESMANCHA
NO CÉU
FICOU UMA NUVEM;
NO MAR
FICOU
UMA MANCHA.
ERA DA COR MAIS INTENSA DE VERDE,
COR DE ESPERANÇA.


UMA POESIA DE MALHA
FEITA DE LÃ DE OVELHA
FAZ O QUE
LHE DÁ
NA TELHA!
A POESIA É SEM IDADE,
É MOÇA
E
VELHA.



QUANDO SE ACERTA A POESIA ,
TUDO VIRA AVENTURA,
LENDA DE CAPA E ESPADA,
MAS SEM MALHA DE ARMADURA.


POESIA, MEU PASSARINHO, 
BORDADA EM TICO-TICO,
PONTO DE ASAS ABERTAS,
ESTRELAS DE PENAS CLARAS,
TAPEDE DE RENDENDÊ,
ONDE AS FLORES MAIS SINGELAS,
ROSAS BRANCAS, AMARELAS,
TECI, PENSANDO EM VOC|Ê.
FIZ UMA TEIA DE SOL,


DA LUA FIZ UM LENÇOL,
DE LUAR É MINHA ESTOLA.
NO SONHO DESTA POESIA 
ME DEITO
DE CAMISOLA.


DONA BRUXA É RENDEIRA,
TECE A NOITE, TECE O DIA,
TECE O SONHO,
TECEDEIRA,
TECE A AURORA EM COR-DE-ROSA.
QUANDO TECE  EM ALGODÃO,
TECE NUVENS PELO CHÃO
COM FIO DE LINHA FINA:
O MUNDO FICA ATAPEDO
DE NEBLINA.



PRA TECER MUITA POESIA,
DONA ARANHA FOI À FEIRA,
COMPROU TRÊS QULOS DE CHUVARADA,
COMPROU UM COLAR DE CONTAS
DE ORVALHO SOBRE ROSAS,
COMPROU OITENTA E TRÊS METROS
DE LUAR DE PURPURINA.
DEPOIS TECEU UM RENDADO,
PEDIU DO SOL,
EMPRESTADO,
UM POUCO DE OURO EM PÓ.
AÍM A DONA ARANHA
DEU UMA LAÇADA DE VOLTA,
MEIA-VOLTA,
VOLTA E MEIA,
TECEU DEPRESSA ESTA MEIA
FEITA DE POESIA SÓ.
E FOI DORMIR NUMA REDE,
LÁ NO CANTO DA PAREDE.


SE AS COISAS FOSSEM MÃE
e a lua fosse mãe, seria mãe das estrelas,
O céu seria sua casa, casa das estrelas belas.

e a sereia fosse mãe, seria mãe dos peixinhos,
O mar seria um jardim e os barcos seus caminhos.

e a casa fosse mãe, seria a mãe das janelas,
Conversaria com a lua sobre as crianças-estrelas,
Falaria de receitas, pastéis de vento, quindins,
Emprestaria a cozinha pra lua fazer pudins!

e a terra fosse mãe, seria mãe das sementes,
pois mãe é tudo que abraça, acha graça e ama a gente.

e uma fada fosse mãe, seria a mãe da alegria.
Toda mãe é um pouco fada... Nossa mãe fada seria.

e uma bruxa fosse mãe, seria mamãe gozada:
Seria a mãe das vassouras, da Família Vassourada!

e a chaleira fosse mãe, seria a mãe da água fervida,
Faria chá e remédio para as doenças da vida.

e a mesa fosse mãe, as filhas, sendo cadeiras,
Sentariam comportadas, teriam “boas maneiras”.

ada mãe é diferente:
Mãe verdadeira, ou postiça, mãe-vovó, mãe titia,
Maria, Filó, Francisca, Gertrudes, Malvina, Alice,
toda mãe é como eu disse.

ona Mamãe ralha e beija,
Erra, acerta, arruma a mesa, cozinha, escreve, trabalha fora,
Ri, esquece, lembra e chora, traz remédio e sobremesa.

em até pai que é “tipo-mãe”...
Esse, então, é uma beleza




A estrela dorminhoca

Uma estrela dorminhoca
Dorme e ronca a noite inteira

Que estrela de doideira,
Que estrela preguiçosa!

Todas, todas as estrelas
Dormem só durante o dia.

Mas a tal da dormideira
Ronca, ronca numa nuvem,
Debaixo do lençol.

Acorda de madrugada,
Esfrega os olhos, rosada,
Dormiu a noite inteirinha.

Depois fica amarelada,
Levanta, toda assanhada,
Dourada estrela sol!